A Venezuela sob a lente de alguns cientistas sociais

A crise na Venezuela e a marcha do autoritarismo naquele país desnortearam boa parte da esquerda brasileira, campo no qual se incluem vários cientistas sociais. Há muita gente boa que estuda e pesquisa o tema há tempos, como o colega Maurício Santoro (UERJ), mas vejo também vários colegas receosos de opinar sobre um processo complexo, alegando que ‘não é possível confiar na Globo News’. Pensando nisso, trabalhei nos últimos dias tentando recolher artigos e entrevistas de cientistas sociais venezuelanos críticos a Maduro que têm um histórico de ativismo e reflexão, e que podem servir como portas de entrada para tod@s aqueles interessad@s em formar uma opinião mais matizada sobre o que se passa.

Pode-se começar por esta entrevista de Edgardo Lander, professor titular da Universidade Central da Venezuela. Ele é autor de um livro fundamental no nosso campo, intitulado ‘Colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas’, editado pela CLACSO em 2000 e gratuitamente disponível aqui .  O livro é hoje uma referência incontornável para todos que trabalham com pesrpectivas de-coloniais nas ciências sociais do continente, reunindo artigos de Walter Mignolo, Enrique Dussel e Fernando Coronil, entre outros. Coronil, aliás, é autor de um clássico livro sobre o Estado venezuelano, intitulado ‘The Magical State: nature, money and modernity in Venezuela‘ . Na entrevista, Lander descreve a engenharia eleitoral utilizada por Maduro para produzir uma Constituinte alinhada com o regime, em desacordo com a Constituição de 1999.

Um segundo passo seria ler artigos de Margarida Lopez Maya, também uma estudiosa do chavismo (e ex-simpatizante) que publicou vários artigos sobre o processo bolivariano. Recomendo este de 2009  em co-autoria com Lander , no qual utilizam a categoria de ‘socialismo rentista’ para descrever o modelo chavista, por sua ênfase no financiamento do consumo e de políticas sociais por meio da renda do petróleo. Além desses texto, recomendaria esta entrevista, concedida ainda em 2016, na qual Mayo analisa o processo de ‘desinstitucionalização’ no país e os conflitos sociais e saques que ocorriam com regularidade, e esta conversa publicada em março no semanário La Razón, em que tece comparações entre Chávez e Maduro e se mostra cética sobre as perspectivas eleitorais no país.

Maria Pilar Garcia-Guadilla é sofisticada estudiosa das experiências comunais chavistas e professora da Simón Bolívar. Publicou várias análises sobre as experiências de democratização promovidas pelo chavismo, entre os quais este artigo, no qual argumenta que a autonomia almejada pelas organizações comunitárias foi fortemente prejudicada por práticas clientelistas e pela cooptação partidária – tema não de todo desconhecido para os que estudaram o movimento de moradores do Rio nos anos de 1980, por exemplo. Nesta entrevista, Garcia-Guadilla analisa a tensão entre democracia participativa e democracia representativa, ambos vetores presentes na Carta de 1999, por meio de uma reflexão crítica sobre os conselhos comunais. Pode-se ler ideias similares nesta entrevista em inglês.

A Revista Venezuelana de Ciências Sociais está disponível no portal Redalyc e tem vários artigos interesses escritos nos últimos dez anos com reflexões e pesquisas sobre a experiência chavista. Vale a pesquisa. Finalmente, recomendaria este relatório da ONG Foro Penal Venezoelano, em que estão listadas violações de direitos humanos no mês de julho e contabilizam-se o número de civis que estão sendo julgados por tribunais militares.

Não acho que cientistas sociais sejam portadores de visões iluminadas e definitivas sobre qualquer assuntoe a lista acima está muito longe de ser exaustiva, reunindo apenas alguns intelectuais que respeito e cuja produção me pareceu interessante e produtiva. Nenhum deles paira acima do bem e do mal, e deve-se analisar o que escrevem à luz de suas trajetórias pessoais, profissionais e políticas, que certamente foram marcadas pelos avanços e retrocessos das últimas décadas em seu país.  As suas análises podem e devem ser confrontadas com outras interpretações, pois é nesse processo que conseguimos formar uma opinião menos refém da lógica imediatista e binária das redes sociais. Espero que os leitores aproveitem a bola levantada para buscarem dados e análises diversas. Há vida além da Globo News, podem acreditar.

 

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As ciências sociais e as torcidas organizadas: entrevista com Bernardo Buarque de Hollanda

Os tristes episódios ocorridos em São Januário no último sábado colocaram novamente em cena a violência no futebol e o fenômeno das torcidas. Em momentos como esses, a demanda por soluções simplistas e supostamente definitivas aumenta, e a paciência por reflexões mais matizadas decresce. Assim, não poderia haver melhor momento para publicar uma entrevista com meu amigo e colega Bernardo Buarque de Hollanda, professor do CPDOC e um dos grandes especialistas brasileiros no tema.

Bernardo é formado em Ciências Sociais pela UFRJ (1996), e obteve Mestrado (2003) e Doutorado (2008) no programa de História Social da Cultura da PUC-Rio. Sua dissertação virou o livro O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego (Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2004, 328p), e sua tese de doutoramento foi publicada sob o título O clube como vontade e representação: o jornalismo esportivo e a formação das torcidas organizadas de futebol do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: 7Letras; Faperj, 2010, 588p). Desde então, Bernardo continuou investindo nas suas duas paixões – o futebol e a literatura – , tornando-se tanto um conhecido estudioso da obra de Zé Lins como também um especialista em estudos sobre torcidas e futebol. Recentemente, editou, juntamente com Onésimo Rodríguez Aguilar, o livro Torcidas Organizadas na América Latina: estudos contemporâneos (Rio de Janeiro: 7Letras, 2017, 230p), referência obrigatória para tod@s aqueles interessad@s em entender a explosão das hinchadas e das barras pelo nosso continente.

Não bastasse tudo isso, Bernardo é amigo querido, com quem compartilhei bons momentos no velho IFCS/UFRJ e nas próprias arquibancadas do falecido Maracanã. No estádio, era facilmente identificável, sempre entre a Raça e as cadeiras especiais, com uma velha camisa da seleção brasileira de 1970. Na entrevista abaixo, ele fala não apenas das torcidas em si, mas de diferentes aspectos implicados na relação entre academia e outros públicos, um dos temas principais deste blog. Leiam:

João: Quando e como você começou a se interessar pelo futebol como tema de pesquisa científica? E por que se focou especificamente nas torcidas organizadas?

Bernardo: Quando eu era adolescente, lembro de ter lido “O que é sociologia do esporte”, de autoria do professor Ronaldo Helal, da famosa coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense. Era um livro de divulgação, mas por meio dele descobri que o autor tinha feito um doutorado em Columbia sobre futebol e cultura de massas. 

Foi muito importante também ler a dissertação de mestrado de Luiz Henrique de Toledo (Antropologia/USP), que se tornou livro em 1996, após receber premiação da Anpocs. Calcado na antropologia urbana, Toledo explorou mitos, ritos e símbolos das TOs e salientou a importância de uma Antropologia das Práticas Esportivas – mais dinâmica e porosa, centrada no corpo e na performance, como queria Michel Leiris –, mais do que propriamente uma Antropologia dos Esportes – esta última subentende mais um entre tantos outros objetos, como se se tratasse simplesmente de um novo subcampo, estático e previamente delimitado.

Depois, nos anos 1990, durante a graduação em Ciências Sociais na UFRJ, vim a saber da existência do Núcleo de Sociologia do Futebol na UERJ. Esse núcleo tinha uma boa exposição na imprensa e saíam matérias sobre livros, congressos e eventos universitários futebolísticos. Foram leituras e informações importantes para eu entender que “era possível”. Foi, inclusive, onde encontrei a indicação da existência de um material inédito, que viria a ser meu tema de mestrado: as crônicas esportivas de José Lins do Rego.  

Já formado, e aí respondo à sua segunda questão, conheci colegas que estudavam as torcidas organizadas: um na Antropologia da UFF, que fazia uma etnografia em seu mestrado sobre a Força Jovem do Vasco; outro, na Sociologia da UERJ, que estudava a Raça Rubro-Negra, tentando entender o etos das torcidas, baseado na “paixão sem compaixão”.

No doutorado, como eu estava num programa de pós-graduação em História, achei que poderia dar uma contribuição ao tema sob essa perspectiva histórica. Resolvi mudar radicalmente o assunto durante o doutoramento – o projeto inicial era sobre literatura – e voltei-me para a conformação desses agrupamentos entre os anos 1940 e 1980. Adorei fazer a pesquisa no arquivo do Jornal dos Sports, in loco, encontrando material publicado e não publicado.

J: Que questões e problemas no campo de estudos sobre futebol ainda demandam mais pesquisas?

Em um texto de balanço, escrito para a série Horizontes das Ciências Sociais, da ANPOCS, a antropóloga Simoni Guedes aponta dois temas que se tornaram até certo ponto canônicos na área, em alguns casos chegando até a certa saturação: o primeiro é a identidade nacional, via debate culturalista freyreano sobre estilo de jogo, o que vai dar na discussão sobre a performance da Seleção nas Copas do Mundo e o papel de Mário Filho como ‘inventor da brasilidade esportiva’.

 O segundo é o da violência no futebol, especialmente aquela que lida com o protagonismo das torcidas organizadas, quase uma demanda da opinião pública, com a qual a Academia tenta lidar na chave compreensiva da relativização, do tipo: não são bárbaros, a questão é mais complexa, o termo violência é reducionista, etc…

 Outro autor a refletir sobre isso foi o historiador Hilário Franco Jr., da USP, que observou em um congresso com quase 200 papers submetidos como praticamente não se estudava o universo dos clubes, nem mesmo os grandes, do eixo Rio-São Paulo. Essa observação me parece uma frente interessante: voltar-se para a microescala, contornar a armadilha da ‘pátria de chuteiras’ e observar as variáveis política, econômica, social e cultural inscritas no universo clubístico.

 Outra lacuna digna de nota são os atores: estudam-se jogadores e torcedores (em especial o segmento organizado), mas pouco se focalizam os dirigentes, os juízes e os treinadores.

 Agora, uma demanda emergente que vem com força e que deve ser contemplada em breve diz respeito às relações de gênero: o futebol feminino, a presença crescente das mulheres nas arquibancadas, a homofobia no esporte. Isso se reflete, de alguma maneira não apenas na temática, como no número de pesquisadoras do sexo feminino que se interessa por estudar futebol.   

J: O último jogo entre Flamengo e Vasco (dia 09/07/2017) foi repleto de incidentes violentos que novamente colocaram em pauta a questão da violência no futebol. Sei que você já tratou do tema em outras ocasiões e gostaria de te perguntar o que sabemos sobre as raízes dessa questão e quais as melhores formas de lidar com o tema.

B: O monitoramento me parece fundamental, analisando caso a caso, acompanhando o grau de rivalidade inter-torcidas, que hoje varia de clube a clube e em escala nacional. 

Quem acompanhou as rodadas anteriores do Vasco em São Januário, já podia perceber o grau de tensionamento interno por que o clube passava. A derrota para o arquirrival, em casa, em um estádio lotado, era um prato cheio para o grupo político vascaíno descontente com a atual direção. 

Mas convém lembrar que os distúrbios ocorridos no último sábado se deveram a conflitos entre torcida e polícia, de um lado, e grupos de torcedores do Vasco entre si, de outro.

 Atravessamos no Brasil, desde o fim da Copa de 2014, a transição dos estádios para as arenas, isto é, do sentido público das praças esportivas – simbolizado pelo Pacaembu e pelo Maracanã entre as décadas de 1940 a 1980 – para o sentido privado dos estádios de clube. Na América do Sul, apenas a Argentina não teve um Estádio Nacional e cultivou desde meados do século XX os estádios particulares, que exerciam especial pressão do time da ‘casa’ sobre a equipe visitante.

 Nessa transição, sem saber como lidar com essa nova característica, os promotores e os Ministérios Públicos estaduais têm adotado a solução paliativa da ‘Torcida Única’. Ela foi implantada inicialmente em Belo Horizonte, onde retroagiu, depois em São Paulo, onde continua firme, e, agora, mas ainda com resistências, no Rio de Janeiro. Embora ações repressivas sejam necessárias, parece-me ilusório achar que se trata de ‘solução’.

 A tensão continua e os efeitos colaterais com o tempo se manifestam, como a canalização para os conflitos torcida-polícia (a Arena Corinthians é um exemplo emblemático) e torcida-torcida do mesmo time, como ocorreu em São Januário.  

J:  Você costuma ser muito requisitado pela imprensa para falar sobre torcidas. Ao longo desses anos de experiência, o que te parece mais complicado na relação entre cientista social/ historiador e mídia em geral?

B: O historiador Leonardo Pereira conta um caso de que gosto muito: depois que lançou seu livro Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938), em 2001, foi convidado a participar de um programa de rádio. Embora tenha frisado os resultados de sua pesquisa, as perguntas dos ouvintes eram do tipo: quem fez o gol do jogo Corinthians e Inter de Limeira em 1974? O Vasco foi mesmo o primeiro clube a admitir negros no futebol? Você está confiante na Seleção este ano? E por aí vai…

 Se diferenciarmos a mídia escrita, falada e televisada, as duas últimas são mais complicadas, pela escassez de tempo e pela ênfase mais incisiva na opinião do entrevistador sobre o entrevistado – você está ali para corroborar uma pauta ou uma ideia preconcebida – entre outros tópicos bem fisgados por Bourdieu em “Sobre a televisão”. Com jornal, em geral, condiciono a entrevista ao envio das questões por escrito, o que é uma forma de filtrar e impedir os ruídos de comunicação.

 Ao estudar torcidas, um ponto que incomoda especialmente é ser procurado no dia seguinte a conflitos, brigas e mortes. Porque mostra como é o funcionamento da “máquina de notícias” e o efeito perverso de reificar um assunto: ele só interessa quando há “problema”, quando é para criminalizar ou para acentuar os aspectos negativos do assunto.

 Em 2015, fiz um estudo na quadra da Gaviões da Fiel e fiquei impressionado com a campanha de arrecadação de mantimentos e de água feita pela torcida para as vítimas de Mariana (MG), depois daquela tragédia ambiental abominável. Me perguntava: poxa vida, por que nenhum repórter se interessa por uma iniciativa como essa?

 Mas é também muito prazeroso ver o interesse da imprensa nos estudos acadêmicos sobre futebol e acompanhar o trabalho de jornalistas da qualidade de Jamil Chade, do Estadão, em que se percebe que há por trás conhecimento, investigação, pesquisa e algum grau de formação acadêmica.   

J: Você participa muito não apenas seminários acadêmicos sobre torcidas, mas também de reuniões e eventos com autoridades públicas, promotores e mesmo torcedores. Essa interação com outras audiências que não as acadêmicas te levaram a repensar suas formas de comunicação e de escrita? O que você aprendeu nesses diálogos com outros públicos? Você percebe algum impacto da sua produção na formulação de políticas públicas?

B: Inicialmente, por conta da própria pesquisa, o contato se deu com as lideranças de torcidas, que em 2008 começaram a recriar suas entidades associativas, existentes nos anos 1970 e 1980. A FTORJ – Federação de Torcidas do Rio – em 2014 se integrou a um grupo mais amplo, a ANATORG – Associação Nacional das Torcidas Organizadas do Brasil.

 Com base nas entrevistas filmadas com esses líderes, fizemos “produtos” fílmicos, no caso, documentários editados pelo Núcleo de Audiovisual e Documentário do CPDOC, que se mostraram excelentes meios de comunicação com públicos mais amplos. Assim fizemos exibições na sede da Academia de Polícia Civil do Rio de Janeiro, em universidades, em feiras de livro e em seminários do Ministério do Esporte, por meio da sua Secretaria Nacional de Futebol e Torcidas.

 Com as lideranças dessas entidades, a aprendizagem tem sido constante, pois deixa de ser uma pesquisa individual e passa a ser um diálogo diário, um acompanhamento intenso, com informações “de bastidor” e um conhecimento por dentro do que se passa no universo das torcidas que, de outro modo, jamais saberia.

 Já com o Ministério do Esporte, compartilhamos os resultados de pesquisa quantitativa, feitos pelo FGV-Opinião, e nos valemos de uma conjuntura positiva, em que nos últimos 10 anos, mesmo com as mudanças ministeriais, o ME tem adotado uma postura receptiva à arbitragem de conflitos e propositiva no diálogo com as torcidas organizadas.

J: Após tantos anos vendo futebol com os olhos de um pesquisador, ainda é possível se apaixonar pelo jogo como um torcedor? Aliás, ainda frequenta estádios na condição de torcedor?

B: Poxa, o telespectador Bernardo continua apaixonado, mas depois de uma “vida ativa” de vinte anos nas arquibancadas do Maracanã, mais precisamente entre 1986 e 2006, tenho ido com bem menos frequência do que gostaria. Morando em São Paulo há 5 anos, gosto de ir às partidas do Flamengo quando joga aqui, como nas partidas do ano passado no Pacaembu, repleto de rubro-negros numa manhã ensolarada de domingo. Foi lindo!

J: Uma última questão que vem afligindo a República brasileira: Márcio Araújo deve sair do time?

B: Não vou fazer o “coro do contrários”: sou favorável à permanência do nosso volante, do nosso técnico e tenho esperanças de que o time volte à Libertadores em 2018. Mas é, claro, o Flamengo, quando perde uma partida, já está em crise… Não há quem aguente a pressão…

Antropologia sob ameaça

Hoje há um evento importantíssimo no PPPCIS-UERJ (Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ): trata-se do seminário ‘Terras Indígenas, Violência no Nordeste e CPI da FUNAI’, agendado para às 17:30 na sala 9031F. Entre os palestrantes, estarão presentes Antônio Carlos de Souza Lima, ex-presidente da ABA, e Daniela Alarcon, doutoranda do Museu Nacional. Por que esse evento é tão importante?

Há pouco menos de um mês, o deputado Nilton Leitão (PSDB-MT) publicou o seu relatório final da CPI FUNAI INCRA 2, no qual pede indiciamento de mais de 60 pessoas, entre funcionários públicos, indígenas e antropólogos. O documento foi a peça final de uma comissão parlamentar de inquérito marcada por forte presença da bancada ruralista e por constantes ataques à Associação Brasileira de Antropologia e aos profissionais envolvidos com a produção de laudos antropológicos, entre os quais Daniela. Aos que tiverem interesse, recomendo a leitura do imenso documento, disponível aqui. Não li o documento inteiro – que é enorme -, mas nas páginas que li, distribuídas ao longo do texto, foi possível ver que a comissão concentrou seus esforços em ouvir colonos, agricultores e moradores de cidades e localidades nas quais havia histórico de conflitos de terra envolvendo indígenas ou quilombolas. Os indígenas – supostamente grandes interessados em discutir a FUNAI – praticamente não foram ouvidos, e antropólogos críticos da ABA ganharam destaque, enquanto profissionais envolvidos com a questão indígena foram tratados como suspeitos. Li até mesmo uma passagem do texto em que a simples citação à obra do historiador inglês E.P Thompson por parte de um antropólogo é interpretada como justificativa para fraude pericial, como se o simples recurso à História Oral fosse altamente suspeito.

A ABA tem reagido a essa ofensiva, como se pode ver aqui , mas o assunto não está merecendo a atenção devida. Parte da imprensa repercutiu o clima geral da comissão, em que a antropóloga Flávia Cristina de Mello, uma da responsáveis pelo estudo de identificação e delimitação da Tera Indígena Mato Preto, foi alvo de questionamentos machistas sobre supostos ‘relacionamentos amorosos’ com indígenas da região. Em depoimentos colhidos no relatório a respeito da situação no Oeste do Paraná, é visível a hostilidade às instituições de ensino superior e às próprias atividades de pesquisa realizadas por estudantes na região, por supostamente serem simples instrumentos de manipulação dos indígenas.

Parece-me claro que o trabalho público realizado por cientistas sociais deve estar submetido ao escrutínio e à crítica de qualquer cidadão, mas não se trata apenas disso. Desde a ascensão do deputado Eduardo Cunha, forças parlamentares mais conservadoras ganharam prestígio e voz no Congresso. Entre os seus alvos, estão as próprias ciências sociais e seus conceitos, como se pode ver em projetos do tipo ‘Escola sem Partido’ ou em numerosas iniciativas legislativas Brasil afora que procuram impedir o uso de conceitos há décadas consagrados, como ‘gênero’. Infelizmente, a CPI da FUNAI INCRA 2 talvez seja mais um episódio assustador desse clima geral de hostilidade não apenas às ciências humanas, mas à própria universidade. Nesse sentido, o evento de hoje não poderia ser realizado em lugar melhor. Afinal, a UERJ talvez seja a vítima mais visível desse misto de hostilidade e desprezo que atinge em cheio as instituições de pesquisa no país. Sucesso ao evento e força à ABA!

Ensinando escrita?

Já escrevi um pouco aqui e ali sobre prática de escrita para estudantes de ciências sociais, mas apenas recentemente comecei a bisbilhotar programas de outras instituições para verificar como elas lidam com o tema em seus cursos de ciências sociais.  A curiosidade não é gratuita, já que desde 2016 tenho participado, juntamente com uma equipe grande de estagiários e professores, de um projeto aqui na FGV sobre o ensino de ciências sociais e história, e parte dessa atividade implica levantar materiais novos que incrementem a prática dos docentes em sala.

Pode parecer um pouco irrelevante discutir disciplinas com foco na escrita em um currículo de ciências sociais diante do excesso de conteúdos obrigatórios que já temos, mas estou convencido da importância do tema. Notem que não se trata simplesmente de ‘redação’, mas de entender que se comunicar adequadamente é algo imprescindível para um profissional do campo, pois nossa tarefa não é apenas dar aulas e fazer pesquisas, mas, também, disseminar e debater dados e problemas públicos. Nesse sentido, escrever artigos acadêmicos é uma das formas de realizar essa tarefa, mas há várias outras práticas de comunicação que poderiam ser trabalhadas, tais como escrever laudos antropológicos, realizar exposições orais sobre sua pesquisa ou mesmo elaborar textos para audiências mais amplas em redes sociais ou na imprensa tradicional.

Para ajudar no mapeamento e verificar como anda o estado da escrita em nossos cursos, a estagiária Beatriz Menezes, do 3o período do curso de ciências sociais da FGV, fez um levantamento bem legal das ementas de disciplinas com essa temática em diferentes instituições do país. Em uma primeira análise do material, percebi que boa parte das universidades públicas mais prestigiosas do Sudeste não têm uma cadeira obrigatória dedicada à produção textual, ao contrário do que ocorre em outros centros regionais. Será que se acredita que os estudantes já entram no curso com habilidades de comunicação e expressão adequadas? Não creio. Aposto mais no inchaço das grades, que impossibilita criar disciplinas com temáticas não propriamente exclusivas de nossa área de concentração.

No caso do conteúdo das ementas que Beatriz pôde encontrar (pois muitas não estavam disponíveis), há mais ênfase no ensino de técnicas de redação e de argumentação, embora haja espaço também para uma discussão da natureza do texto acadêmico. Pouquíssimos programas são dedicados exclusivamente a um debate mais amplo sobre a natureza da escrita científica tal como apontei no segundo parágrafo deste texto. Destacaria nesse quesito a eletiva oferecida no IFCS pela colega Eloísa Martin, que discute inclusive as estratégias de publicação de textos e se afasta do modelo ‘técnicas de redação’.

Andei fuçando também as estruturas curriculares de universidades britânicas, e percebi que a maioria dos melhores cursos de sociologia listados no ranking do Guardian também não possui disciplinas com essa finalidade. Quando muito, o tema emerge nas cadeiras de metodologia, o que não deixa de ser uma alternativa interessante, pois permite ao estudante conectar questões práticas da comunicação científica a uma reflexão sobre o próprio processo de produção de conhecimento. Acho que cadeiras dedicadas à etnografia devem ir por esse caminho, já que a Antropologia desde muito tem feito notável esforço para discutir o estatuto da escrita na área.

Enfim, o caminho é árduo e agradecemos qualquer ajuda. Caso queiram compartilhar programas e iniciativas relacionadas ao tema, por favor usem a caixa de comentários, até para que os 34 leitores do blog possam também conhecer esse material e contribuir para a conversa.

As potências do ensino

Manter esse blog em meio ao caos político do Brasil é quase como lutar de forma consciente pela irrelevância midiática. Afinal, quem diabos quer perder tempo lendo sobre o mundo das ciências sociais em meio à possibilidade de renúncia do Interinato? Mesmo assim, acho que a política entendida em sentido amplo também implica lutarmos para manter vivos debates e ideias que sejam relevantes e potentes, ainda que não diretamente relacionados à crise incessante que nos assola.

Escrevo este post ouvindo as músicas do álbum Liminal Minds, lançado por Obasi Shaw, jovem rapper de 20 anos. Shaw escreveu e produziu o álbum como sendo seu trabalho final de graduação em Literatura Inglesa em Harvard. As letras discorrem sobre a experiência histórica afro-americana tendo como fonte de inspiração “Canterbury Tales”, um clássico da literatura inglesa escrito por Geoffrey Chaucer, e as músicas são muito boas, longe da chatice que se poderia imaginar de um clássico ‘TCC de final de curso’. Aqui nesta reportagem da Harvard Gazette, vocês podem ler mais sobre a formação de Shaw (um jovem que curte rap cristão!) e as conexões que ele estabeleceu entre poesia inglesa e rap.

O caso ilustra algo que não é propriamente uma novidade, mas que permanece muito pouco explorado no ensino de Humanidades: a possibilidade de utilizarmos diferentes formatos para a produção de conhecimento, o que implica fazer o espaço acadêmico dialogar com saberes não legitimados e, mais ainda, reconhecê-los como fonte de cognição, e não como simples ‘objeto’. Acho que desde Paulo Freire essa sacação está rodando por aí, mas o fato é que na prática de sala de aula nas universidades (ambiente com o qual sou mais familiarizado), é extremamente incomum conseguirmos sair do clássico ‘ler o texto/discutir o texto/escrever sobre o texto’, tendo como mediação palestras do professor. Eu mesmo faço isso em 90% de meu tempo com estudantes.

A escuta desse álbum me veio alguns dias depois de ter assistido à palestra do historiador Luiz Antônio Simas aqui no CPDOC. Simas combinou Walter Benjamin e Caboclo da Pedra Preta para defender a ideia de uma escola não-eurocêntrica que reconheça e incentive os saberes históricos produzidos ao longo da diáspora africana no Brasil, saberes esses que foram soterrados na avalanche de nosso ‘progresso’. Não se trata aí de ensinar ‘folclore’, mas sim de inventariar a potência cognitiva e existencial desses modos de narrar e criar mundos, situando-os em diálogo criativo com outras formas de conhecimento mais canônicas. Na sua fala, Simas deu destaque justamente aos diferentes toques de tambor das religiões afro-brasileiras, discorrendo sobre seus significados variados e as narrativas permitidas por eles, conectando-os aos debates que os alunos podem ter na sala de aula. Sem saber, o jovem Shaw estava fazendo isso, ao usar o rap como forma expressiva legítima, e não apenas como objeto de uma tese acadêmica.

Shaw e Simas nos mostram que é possível criar alternativas ao formato mais tradicional de ensino. Mas, os obstáculos são muito grandes e variados. Por um lado, o racismo é traço permanente na sociedade brasileira, e contribuiu para desqualificar historicamente os saberes da diápora e reproduzir modelos de ensino tidos como mais ‘civilizados’. Por outro, sabemos que a preparação dos docentes e as condições de trabalho que lhes são oferecidas são o ponto cego de qualquer discussão que busque ‘revolucionar’ nossos formatos de ensino.  Ou seja, como transformar essas sugestões em políticas públicas efetivas, que permitam que os pares rap/Chaucer e Benjamin/Pedra Preta dialoguem, fertilizem-se mutuamente e estejam integrados a um planejamento didático coerente, que faça sentido para estudantes?

É claro que se fôssemos cobrar efetividade e realismo diante de toda ideia inovadora que escutamos, ninguém faria nada a não ser tocar a rotina. Nesse sentido, as provocações de Shaw e Simas são excelentes para pensarmos o dia-a-dia de nossas salas e as pequenas inovações que podemos fazer no encontro regular que temos com estudantes. Isso sempre será possível, embora haja espaços mais ou menos abertos a esse tipo de discussão e de trabalho acadêmico.

Finalmente, para quem curtiu o debate, aproveito para deixar aqui o convite para o Seminário ‘Como Você Ensina? Novos desafios e estratégias no ensino de Ciências Sociais e História‘, que estamos promovendo no CPDOC no final de agosto. Inscrições estão abertas e as atividades foram pensadas tendo algumas das questões deste texto em mente. Apareçam!

Novamente o mercado de trabalho

Ontem estive lendo um interessante artigo do Eugênio Braga sobre os cientistas sociais extra universitários, isto é, os profissionais que não trabalham com pesquisa na academia, mas em outros espaços. O objetivo é debater com os calouros deste ano na Escola de Ciências Sociais/ CPDOC alguns aspectos do nosso campo profissional, que permanece sendo um assunto muito pouco estudado. Esse texto do Braga é de 2009, e mesmo com algumas limitações, permanece sendo uma análise interessante.

O texto tem como objeto os cientistas sociais que trabalham em institutos de pesquisa de opinião no estado de São Paulo. É um universo bem amplo, com mais de 150 empresas listadas, muitas delas de pequeno porte, com menos de dez funcionários e muita contratação ‘por projeto’. Os cientistas sociais não são tão numerosos como os administradores (compõe pouco menos de 10% dos profissionais de nível superior nesses institutos), mas são a categoria com maior abrangência, isto é, mesmo em número reduzido, há cientistas sociais em muitas empresas do tipo. Braga não obteve uma grande taxa de resposta para os questionários enviados (28%), e realizou relativamente poucas entrevistas em profundidade (8), mas, ainda assim, há algumas inferências interessantes que podem interessar os leitores.

O artigo inicialmente tenta apontar o contexto histórico recente da relação entre ciências sociais e vida profissional, marcado por uma relação pouco fluida entre vida acadêmica e o espaço civil mais amplo. Na década de 1970, os programas de pós-graduação começam a proliferar, justamente num momento em que a conexão com a vida social ficava mais rarefeita, por conta da repressão. Isso produziu uma configuração que mescla uma vida acadêmica plural e sofisticada, mas que encontrou dificuldades para se conectar com o mercado de trabalho e outras associações. Tal modelagem se refletiu na formação dos cientistas sociais, extremamente focada na preparação teórica e muito desconfiada de qualquer diálogo com o mundo profissional ‘lá fora’.

As nossas principais associações, como SBS e ANPOCS, não abrem espaço significativo para os profissionais que estão fora da academia, produzindo uma estratificação estranha, em que a identidade dos cientistas sociais não é produzida por disputas e tensões dentro de um campo profissional (como em outras profissões), já que esse campo praticamente inexiste, dada a distância entre acadêmicos e extra acadêmicos. Ficamos na estranha posição em que os ‘profissionais’ da área são formados pelo setor justamente mais afastado da vida profissional mais geral rs. Tal fato se reflete na difícil construção da identidade desses cientistas sociais dos institutos de opinião, que, curiosamente, não se veem como cientistas sociais em atividade. A despeito de trabalharem com técnicas de pesquisa, muitos entrevistados por Braga se veem como um grupo ‘desviante’ da norma e alimentam, por vezes, um sentimento de culpa, como se fossem ‘menos cientistas sociais’ e tivessem ‘vendido a alma’.

O artigo chama a atenção também para a dificuldade de se definir profissionalmente  a prática do cientista social. Afinal, trata-se de delimitar e regulamentar um conjunto de atividades e funções, ou de simplesmente reconhecer o diploma como credencial que identifica o cientista social? Pessoalmente, acho extremamente difícil regulamentar uma prática como a nossa, já que realizar ‘pesquisas sobre a sociedade’ é tarefa feita por outros profissionais também, como educadores e mesmo economistas. Ao mesmo tempo, reconheço que nem todo formado em ciências sociais que trabalha está realizando algo minimamente identificado com sua formação. Entre as duas opções, parece-me que o melhor é uma combinação que parta dos processos de auto-identificação dos profissionais, mas que tenha generosidade para identificar a diversidade de atividades nas quais podemos atuar.

Finalmente, acho que temos sinais de transformação nesse cenário. A tese de doutorado de Danilo Torini na USP, que já citei aqui neste blog, tem uma visão um pouco mais otimista que destoa do grosso da literatura existente. Ela detectava um crescimento das matrículas por conta da obrigatoriedade de sociologia no ensino médio e uma maior fluidez de trajetórias profissionais, com egressos que combinavam aprendizado profissional e pós-graduação. Vamos ver se essa tendência se confirma e, principalmente, se isso vai se refletir na configuração das nossas associações.

A sociologia nos manuais escolares

No mês de março, estive na banca de doutorado em Sociologia da minha colega Julia Polessa, que é professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Tudo transcorreu bem, e gostei tanto do trabalho que resolvi partilhar com vocês alguns comentários, que penso irão interessar tod@s que atuem com a sociologia na escola.

A tese chama-se “O ensino de sociologia e ciências sociais no Brasil e na França: recontextualização pedagógica nos livros didáticos” e foi orientada pela profa. Gláucia Villas-Bôas, tendo como examinadores Helena Bomeny, Antônio Brasil Jr, Ileizi Silva e o titular deste blog. O objetivo do trabalho é fazer uma comparação entre os manuais escolares de sociologia no Brasil e na França com o intuito de analisar as diferentes maneiras pelas quais o conhecimento sociológico é ‘traduzido’ em textos voltados para o público do ensino médio. Para tanto, além de analisar o texto de vários manuais publicados nas décadas de 1990 e 2000, Julia faz um interessante trabalho sobre as imagens e os gráficos utilizados em cada livro. Há também boas entrevistas com os profissionais envolvidos nesse trabalho na França. Algumas questões me chamaram a atenção:

Em primeiro lugar, há profundas diferenças nas trajetórias do ensino dessas disciplinas em cada contexto. No caso francês, a sociologia é ensinada juntamente com as ciências econômicas há décadas, e os livros combinam temas e conceitos pertencentes às duas áreas. Isso talvez explique a profusão de gráficos e dados numéricos que figuram nos manuais de lá, bem como a ênfase que se dá à discussão sobre desigualdades salariais e mercado de trabalho. No Brasil, o movimento pela sociologia ganhou força com o processo de democratização na década de 1980, período durante o qual diferentes estados procuraram reintroduzir a disciplina em seus currículos. Esse contexto fez com que a sociologia fosse vista como uma espécie de ferramenta disciplinar para ajudar na formação da cidadania, algo que, na França, é papel cumprido por outros conteúdos, já que à sociologia se destina o cultivo de um espírito de pesquisa.

Os livros também traduzem profundas divergências pedagógicas. Na França, há pouco material escrito por professores-autores, e o grosso do texto é composto de ‘documentos’ (fontes primárias, em geral) que são fornecidos para que os estudantes resolvam problemas por meio da análise sociológica e do raciocínio científico. Já aqui, o modelo dominante combina alguns exercícios com longos trechos autorais em que os professores ‘mastigam’ autores e teorias consideradas fundamentais para os estudantes de ensino médio. Isso, de certa maneira, reflete a compreensão brasileira da sociologia como uma espécie de ‘história do pensamento sociológico’ – certamente, o prestígio do chamado ‘pensamento social brasileiro’ é indicativo dessa configuração.

Interessante notar de que forma as hierarquias no campo pedagógico se cruzam com as hierarquias mais amplas do campo acadêmico. As comissões francesas que pensaram os conteúdos pedagógicos por lá foram compostas por pesquisadores no topo da carreira, como Boudon, Derrida e Bourdieu, ao passo que, no caso brasileiro, apenas mais recentemente o ensino de sociologia ganhou força e densidade acadêmica no âmbito dos programas de pós-graduação em Sociologia. A despeito dessa diferença, na França não há nada similar ao PNLD (Programa Nacional de Livro Didático) brasileiro, que fornece minuciosas diretrizes para a composição do material e termina por centralizar todo o processo.

Uma questão que me chocou: a julgar pela análise da Julia, os livros de sociologia na França praticamente não tratam de temas como racismo e colonialismo, fenômenos absolutamente centrais em uma sociedade que foi um Império europeu. Talvez isso se explique pelo fato da sociologia ser ensinada juntamente com as ciências econômicas. Ou, talvez, isso diga muito sobre a forma como a elite francesa lida com esse passado e suas fraturas, particularmente à luz de um modelo fortemente republicano e avesso às demandas identitárias. O material brasileiro, por sua vez, trabalha bem mais intensamente essa temática.

Finalmente, acho que a tese da Júlia trata de um tema crucial para todos nós: a forma como o conhecimento sociológico produzido na academia circula e é recriado em diferentes contextos, exercendo papel relevante na constituição de diferentes práticas sociais. Se pensarmos na centralidade que a escola tem na vida dos jovens brasileiros, chegaremos à conclusão de que é por meio dessa tradução pedagógica que a sociologia ganha ‘vida pública’, atingindo um público bem mais amplo do que o acadêmico.

Ao fim, saí querendo saber mais. Algumas perguntas que considero fundamentais: como os professores usam o livro em sala? Como os autores desses manuais leem e traduzem os conceitos disponíveis nos trabalhos acadêmicos mais recentes? Qual a política por trás das comissões do PNLD, e como as hierarquias desses diferentes espaços se cruzam? Há aí uma longa agenda para os interessados na sociologia no ensino médio, área que teve notável crescimento nos últimos anos, e que hoje se encontra profundamente ameaçada pelas recentes ‘reformas’ do MEC.