Coordenando

Desde a segunda-feira dia 20 de março, não sou mais coordenador de graduação aqui no CPDOC. Estava nessa função há mais de quatro anos, e com alegria passei o bastão para minha colega Letícia Ferreira, gente boa da melhor qualidade e antropóloga fina. Nos últimos dias, matutei sobre o que aprendi nessa função, e resolvi compartilhar algumas pensatas sobre as alegrias e os dilemas de pensar um curso de Ciências Sociais.

A primeira coisa a se ter em mente é que a função de coordenador aqui difere substancialmente da tradicional função de coordenador de curso de Ciências Sociais em universidades federais e particulares. Isso se deve ao fato da nossa Escola de Ciências Sociais ser uma instituição de ensino superior isolada mantida pela FGV – quer dizer, ela tem um estatuto de faculdade particular, pois a Fundação não é uma universidade ou centro universitário. Assim, funções que numa PUC são normalmente atribuições de instâncias gerais da universidade, como planejamento institucional, comissão própria de avaliação e regulação, são todas concentradas no coordenador de graduação. Ou seja, além do trabalho rotineiro que todo coordenador conhece, e que envolve analisar requerimentos de estudantes, dirimir eventuais problemas e organizar grades, também tive que fazer relatórios e formulários que usualmente seriam feitos por órgãos ‘superiores’.

Mas, essa mesma sobrecarga me fez conhecer um pouco mais a fundo o funcionamento dos mecanismos de regulação das instituições superiores, o que acho fundamental para qualquer cientista social que trabalhe nesse nível de ensino. Infelizmente, a dimensão colegiada dos departamentos tem sido afetada fortemente nos últimos anos, e é mais comum vermos o investimento puramente individual dos pesquisadores nas suas instituições, que terminam sendo apenas espaços de trabalho. Conhecer o sistema mais amplo (MEC e o sistema SINAES) te obriga a pensar o tempo todo na vida coletiva desses espaços, e em processos que melhorem esse ambiente e o tornem mais dinâmico. O lado negativo é que passamos boa parte do tempo lutando para atender exigências legais,  e não pensando em organizar cursos livres, palestras, atividades de extensão etc.

Lidar com estudantes é difícil, mas muito legal, e funciona como uma constante lembrança de que vocações não nascem do nada e que dúvidas e hesitações são absolutamente comuns. Como professores, temos uma tendência a buscar o máximo de ‘rendimento’ de cada aluno, e nem sempre atentamos para o fato de que cada um tem uma história, uma biografia e um conjunto complexo de afetos e potências. Nem sempre consegui agir da melhor maneira, até por temperamento, mas estou certo que aprendi bastante e sou um docente melhor por ter que lidar com situações complexas. Assustei-me com a quantidade de sofrimento psíquico que vi nos cursos de graduação e pós-graduação no Brasil, e tenho tentando ler mais sobre a questão.  Estresse, depressão, síndrome do impostor e síndrome do pânico foram palavras que nunca imaginei ouvir tantas vezes em um mesmo espaço. Acho sinceramente que conhecer mais sobre o assunto talvez seja mais importante para quem dá aulas hoje do que ter as melhores estratégias didático-pedagógicas. Um bom começo é essa série de reportagens do Guardian sobre a crise de saúde mental nas universidades britânicas.

Acho que a melhor coisa de coordenar uma graduação é poder pensar a vida coletiva de um curso. Por ‘vida coletiva’, refiro-me ao espírito de uma graduação, traduzido na cultura institucional, na grade curricular e na necessária auto-reflexão feita pelos docentes. Essa vida coletiva está sob ameaça em vários lugares, sob pressão de fatores distintos, tais como o produtivismo, a crise financeira e orçamentária das universidades, as exigências regulatórias mais e mais abrangentes e a disseminação das práticas de controle do trabalho docente dentro de faculdades e universidades. Tudo isso faz com que cada pesquisador se concentre em racionalizar o seu tempo de trabalho em função de seus próprios projetos individuais, algo que não é exclusividade do Brasil. Eu não escapo a isso, mas ao longo de 4 anos tive que me empenhar para tirar a cabeça do buraco e olhar para os outros e para a vida coletiva da instituição, e só por isso já achei que valeu muito a pena. Convido vocês a fazerem o mesmo. Da próxima vez que te pedirem para coordenar algo, aceitem. E não reclamem, aproveitem.

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2 comentários sobre “Coordenando

  1. Olá,

    Além das reportagens do The Gardian, há alguma outra referencia que pudesse me indicar? Estou pensando em elaborar um projeto de pesquisa sobre a temática, nova para mim, e por isso ainda tanteado os materiais.

    Parabéns pelo Blog. :c)

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