A Venezuela sob a lente de alguns cientistas sociais

A crise na Venezuela e a marcha do autoritarismo naquele país desnortearam boa parte da esquerda brasileira, campo no qual se incluem vários cientistas sociais. Há muita gente boa que estuda e pesquisa o tema há tempos, como o colega Maurício Santoro (UERJ), mas vejo também vários colegas receosos de opinar sobre um processo complexo, alegando que ‘não é possível confiar na Globo News’. Pensando nisso, trabalhei nos últimos dias tentando recolher artigos e entrevistas de cientistas sociais venezuelanos críticos a Maduro que têm um histórico de ativismo e reflexão, e que podem servir como portas de entrada para tod@s aqueles interessad@s em formar uma opinião mais matizada sobre o que se passa.

Pode-se começar por esta entrevista de Edgardo Lander, professor titular da Universidade Central da Venezuela. Ele é autor de um livro fundamental no nosso campo, intitulado ‘Colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas’, editado pela CLACSO em 2000 e gratuitamente disponível aqui .  O livro é hoje uma referência incontornável para todos que trabalham com pesrpectivas de-coloniais nas ciências sociais do continente, reunindo artigos de Walter Mignolo, Enrique Dussel e Fernando Coronil, entre outros. Coronil, aliás, é autor de um clássico livro sobre o Estado venezuelano, intitulado ‘The Magical State: nature, money and modernity in Venezuela‘ . Na entrevista, Lander descreve a engenharia eleitoral utilizada por Maduro para produzir uma Constituinte alinhada com o regime, em desacordo com a Constituição de 1999.

Um segundo passo seria ler artigos de Margarida Lopez Maya, também uma estudiosa do chavismo (e ex-simpatizante) que publicou vários artigos sobre o processo bolivariano. Recomendo este de 2009  em co-autoria com Lander , no qual utilizam a categoria de ‘socialismo rentista’ para descrever o modelo chavista, por sua ênfase no financiamento do consumo e de políticas sociais por meio da renda do petróleo. Além desses texto, recomendaria esta entrevista, concedida ainda em 2016, na qual Mayo analisa o processo de ‘desinstitucionalização’ no país e os conflitos sociais e saques que ocorriam com regularidade, e esta conversa publicada em março no semanário La Razón, em que tece comparações entre Chávez e Maduro e se mostra cética sobre as perspectivas eleitorais no país.

Maria Pilar Garcia-Guadilla é sofisticada estudiosa das experiências comunais chavistas e professora da Simón Bolívar. Publicou várias análises sobre as experiências de democratização promovidas pelo chavismo, entre os quais este artigo, no qual argumenta que a autonomia almejada pelas organizações comunitárias foi fortemente prejudicada por práticas clientelistas e pela cooptação partidária – tema não de todo desconhecido para os que estudaram o movimento de moradores do Rio nos anos de 1980, por exemplo. Nesta entrevista, Garcia-Guadilla analisa a tensão entre democracia participativa e democracia representativa, ambos vetores presentes na Carta de 1999, por meio de uma reflexão crítica sobre os conselhos comunais. Pode-se ler ideias similares nesta entrevista em inglês.

A Revista Venezuelana de Ciências Sociais está disponível no portal Redalyc e tem vários artigos interesses escritos nos últimos dez anos com reflexões e pesquisas sobre a experiência chavista. Vale a pesquisa. Finalmente, recomendaria este relatório da ONG Foro Penal Venezoelano, em que estão listadas violações de direitos humanos no mês de julho e contabilizam-se o número de civis que estão sendo julgados por tribunais militares.

Não acho que cientistas sociais sejam portadores de visões iluminadas e definitivas sobre qualquer assuntoe a lista acima está muito longe de ser exaustiva, reunindo apenas alguns intelectuais que respeito e cuja produção me pareceu interessante e produtiva. Nenhum deles paira acima do bem e do mal, e deve-se analisar o que escrevem à luz de suas trajetórias pessoais, profissionais e políticas, que certamente foram marcadas pelos avanços e retrocessos das últimas décadas em seu país.  As suas análises podem e devem ser confrontadas com outras interpretações, pois é nesse processo que conseguimos formar uma opinião menos refém da lógica imediatista e binária das redes sociais. Espero que os leitores aproveitem a bola levantada para buscarem dados e análises diversas. Há vida além da Globo News, podem acreditar.

 

Anúncios

2 comentários sobre “A Venezuela sob a lente de alguns cientistas sociais

  1. Vou ler atentamente mas não sei vai além da Globonews. Propõe romper com o binarismo divulgando apenas textos críticos a Maduro e logo na primeira frase acusa o “totalitarismo” do regime. Se isso é romper com o binarismo sobre a Venezuela imagine quem se opõe a Revolução Bolivariana…

    Curtir

    1. Olá, tudo bem? Usei ‘autoritarismo’ e não ‘totalitarismo’. Acho que há diferença nos conceitos. Se ainda assim o conceito te parece equivocado, sem problemas! Recomendo a leitura dos links, acho que eles são bem mais interessantes do que o meu texto.
      Abraço e obrigado pela visita.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s