Textão do arrastão

A sociologia fala do arrastão? A julgar pelos resultados retornados por uma consulta básica no Google Scholar, fala sim. O título dos papers e dos livros indicam uma preferência pela análise de discurso, tomando o arrastão como uma construção midiática que deve ser analisada e desconstruída. Nesse estranho mês de setembro que vivemos no Rio, a palavra voltou à baila, desta vez acompanhada pela proliferação de imagens que é uma característica da vida pública contemporânea. Resolvi, portanto, abandonar um pouco os assuntos mais acadêmicos para me arriscar no modelo “textão do Face”, embora eu continue heroicamente a resistir ao Facebook.

Hoje o jornal O Globo publicou dois textos sobre o tema. Sobre os aspectos legais da ação policial, o meu colega de FGV Thiago Bottino matou a pau e tenho pouco a acrescentar. O sociólogo Marcelo Burgos, da PUC-Rio, escreveu sobre o arrastão como um drama público que evidencia a invisibilidade dos jovens periféricos. Também achei bem interessante, mas é fato que se os aspectos jurídico-legais são mais consensuais entre especialistas (afinal, parece-me óbvio que a polícia pode atuar preventivamente, dentro dos limites constitucionais, respeitando o ECA e garantindo direitos de todos), as dimensões políticas, éticas e sociológicas são bem mais complexas.

Acho que o primeiro passo é reconhecer que a sociologia não é um discurso de especialistas que pontificam de forma abstrata por cima da sociedade. Isto é, não dá para esperar que exista uma análise científica que irá descer dos céus da pós-graduação brasileira para iluminar a todos com uma solução. Quando muito, podemos fazer o que Marcelo Burgos fez muito bem: desempacotar o pacote fechado midiático, analisar variáveis pouco evidentes, mostrar relações e chamar atenção para aspectos que merecem reflexão dos cidadãos. Ou seja, a sociologia pode contribuir como um discurso capaz de estabelecer mediações e traduções, papel crucial numa sociedade em que escrever em caixa alta ou interromper o outro em voz alta são tomados como sinônimos de coragem cívica.

A primeira questão que me chama a atenção é que os chamados arrastões e seus efeitos ocorrem nas praias do Rio de Janeiro. Eventuais arrastões em rodovias e outras vias expressas do Rio não são incomuns, mas ganham menos dramaticidade do que esses episódios que envolvem jovens, praias e lazer coletivo. Praias, como sabemos, não são propriamente espaços democráticos, já que são permeadas por lógicas de classe e de raça. Quem tiver tempo, pode ler este textão em inglês do James Freeman sobre o tema. Ou ler esta entrevista da Julia O’Donnell que entrega o ponto logo no título. Mesmo assim, as praias são tidas como um bem público da cidade e fator crucial na construção da identidade nativa. Dito de outro modo: o arrastão é drama porque desestabiliza as narrativas mais caras aos cariocas, que adoram imaginar que vivem em uma cidade democrática, na qual injustiças e desigualdades são superadas pelo jeitão boa praça do nativo. Sabe como é, o sujeito mora na Vieira Souto e troca ideia com o trabalhador no botequim e acredita que isso evidencia que o Rio é harmonioso e diferente do resto do Brasil.

A segunda questão é o “efeito redução” desse drama. As cenas de correrias, roubos e brigas nos fazem esquecer que milhares de pessoas se deslocam entre as Zonas Sul e Norte nos fins de semana, mas não fazem parte desse drama coletivo. Ou seja, a tensão pode ser coletiva e disseminada, mas as experiências e interações dos cariocas nas praias podem ser bem mais plurais e sossegadas, ainda que pautadas por lógicas de raça e classe. Aliás, pensem nisso: milhares de pessoas se deslocam diariamente das periferias do Rio para trabalhar no Centro e na Zona Sul. Elas enfrentam um assalto diário aos seus direitos e à sua segurança, tendo que lidar com trens lotados e fora do horário, seguranças violentos, estações inseguras e trajetos nos quais a violência é sombra constante. Nesse cenário, a reprodução da vida cotidiana do Rio de Janeiro é quase um milagre coletivo, e a convivência eventualmente distensionada entre os moradores é que seria o enigma a ser decifrado.

O “efeito redução” afeta também as interpretações sobre o arrastão. Muitos não hesitam em ver na indignação dos praianos eventualmente entrevistados um sintoma de ódio de classe ou simples mimimi de classe média alta. Amigo, se você conversar 3 minutos com barraqueiros, vendedores, porteiros e outras pessoas que trabalham e vivem naquelas áreas quase diariamente, notará que os pedidos por policiamento e segurança não são necessariamente gritos de fascistas ou de justiceiros fortinhos.  A praia não é um espaço no qual há uma luta de classes simples e direta, opondo jovens periféricos a burgueses coxinhas que querem uma intervenção militar que proíba a linha 474. Há famílias inteiras das Zona Norte e Oeste, que querem ficar sossegadas no domingo, tomando cerveja e mergulhando. Há os que trabalham diariamente na praia, e que movimentam essa vasta economia informal da cidade. Há os surfistas do Cantagalo e da Rocinha. E todos esses grupos podem legitimamente querer segurança e direito à vida boa no domingo e no resto dos dias. Além disso, a luta por democracia e direitos não ganha aliados quando uma senhorinha tem a carteira furtada ou é derrubada na rua em uma correira, ou quando um adolescente de classe média tem uma bicicleta roubada. Serão mais dois cidadãos corroídos pelo medo e com aversão ao mundo da rua.

O arrastão pode ajudar a pensar para além dos simplismos? Esta me parece ser a terceira e decisiva questão. Acho que sim, e a sociologia pode ajudar. Como se sabe, o debate público é, em boa medida, construído a partir das experiências subjetivas dos moradores dos bairros perto da praia. Não acho que sejam ilegítimas, mas o fato é que o debate público não pode ser pautado apenas por esses relatos, sob risco de não exercitarmos a capacidade analítica e e a própria empatia que está na base da razão democrática. É preciso pensar em como o direito à cidade é um dos mais escassos direitos no Rio de Janeiro, e muito mal distribuído. Isso inclui o direito à mobilidade dentro do espaço urbano, que afeta as jornadas de lazer dos cariocas que querem ir à praia. O 474 é a “linha do inferno” para o sujeito que precisa encarar um ônibus quente e lotado para ir à praia, e cuja viagem pode demorar o triplo caso tenha que ser interrompida por algum check point da PM na frente do Rio Sul. Esse sujeito gostaria que o ônibus fosse limpo, e que houvesse segurança e sombra nos pontos de ônibus no Engenho Novo. Talvez ele deseje ainda mais intensamente que existisse metrô no seu bairro, e que seu filho pudesse ir sozinho pra praia e voltar à noite em segurança. Esse cara quer ser um praiano, mas a pergunta fundamental é: a cidade vai deixar ele ser um?

 

Anúncios

3 comentários sobre “Textão do arrastão

  1. Oi João…

    Muito boas as suas observações.

    A própósito delas, você chegou a ver esse teaser do documentário (ou mesmo o documentário inteiro) sobre o sistema jurídico e prisional brasileiro, intitulado “Sem pena”, do diretor Eugênio Puppo?

    Nesse breve vídeo, uma dicussão próxima a que você apresenta* é feita, rapidamente, pela socióloga/psicóloga carioca Silvia Ramos: https://www.youtube.com/watch?v=dHXuY0m7Hec.

    Vale conferir!

    Um abraço e continue nos brindando com as suas ótimas reflexões.

    Att.

    Rafa

    😉

    **************

    * “A primeira questão que me chama a atenção é que os chamados arrastões e seus efeitos ocorrem nas praias do Rio de Janeiro. Eventuais arrastões em rodovias e outras vias expressas do Rio não são incomuns, mas ganham menos dramaticidade do que esses episódios que envolvem jovens, praias e lazer coletivo. Praias, como sabemos, não são propriamente espaços democráticos, já que são permeadas por lógicas de classe e de raça.” (palavras suas, no incício do parágrafo 4º).

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s